Visão Viagens

Em 2009, a revista Visão Viagens convidou-me para uma entrevista para uma coluna que se chamava, salvo erro, “Pessoas com Mundo”. Aqui fica o texto que foi publicado, juntamente com várias fotografias de viagem minhas.

Olhar felino

Pedro Miguel Santos (texto) José Caria (foto)

João Martins Pereira já esteve em mais de 70 países mas isso não impede que descreva África com o entusiasmo de quem sai de Portugal pela primeira vez. Se lhe falarmos em leopardos, então os seus olhos brilham de excitação. Mas os contrastes do sudoeste asiático e do extremo oriente também lhe marcam a vida.

Foi difícil marcar o dia e hora da conversa. E também não foi fácil terminá-la. Ser assessor do conselho de administração do BES tem estes entraves em relação ao tempo se não é trabalho fica difícil encaixar.
De entrevistas no escritório interrompidas por inúmeros telefonemas, a saídas repentinas para ir “acudir” os chefes, falar da vida e das viagens de João Martins Pereira foi um episódio em dois actos, com cenários que variaram entre o escritório na Rua Castilho e a esplanada da Cinemateca. Talvez seja por isso, pela pressa e pelo constante ritmo apressado da sua vida profissional que este homem se escapa sempre que pode. Fá-lo regressando às origens e ao que a vida tem de mais básico: a natureza e o homem, as relações que os unem e afastam.
Natural das Caldas da Rainha, cedo deixou a pátria do fado e foi saltando de país em país, sobretudo por razões profissionais.
Durante mais de vinte anos trabalhou para a PriceWaterhouseCoopers, uma das maiores consultoras do mundo, onde desempenhava funções na área de gestão financeira e de recursos humanos. Foi isso que o transformou num homem do mundo e que o obrigou a percorrer o planeta.
De Cabo Verde, que visitou regularmente durante 15 anos, recorda uma espécie de “Portugal crioulo”; sobre a Grécia diz que não foi dos sítios mais estimulantes onde já viveu porque não é sensível à “cultura da ruína histórica”. Passou pela Inglaterra e Alemanha mas, onde gostou mesmo de viver foi em Kiev, na Ucrânia, entre 1997 e 2000. “Vi a transformação de um povo e de uma sociedade. Aquilo de que gosto é do conceito de história viva, perceber porque persistem uns povos e outros não.” Não é que não goste de perceber o passado, o que não entende é a redução de um passado a datas. “Não gosto da história dos números. Interessa-me saber o resultado das estórias que às vezes fazem civilizações tão parecidas convergirem em caminhos tão diferentes. Interessam-me muito mais as gentes e a natureza”.
Aos 51 anos não hesita em dizer: “Sou mais um viajante que um turista. Se pudesse seria um viajante, porque gosto de conhecer e viver os sítios onde vou, não gosto de passar por eles. Tenho alguma dificuldade em ir para resorts onde há 1 500 quartos e 14 piscinas.” Está dito.

ÁFRICA DELE

Se tivesse um mapa assinalando os locais onde já esteve o continente africano teria certamente muitas marcas: Marrocos, Argélia, Egipto, Quénia, Guiné, Senegal, Tanzânia, Zimbabué, Botsuana, África do Sul. Quinze países. Porquê? “Pela força visual, pelos cheiros, pelo calor, pelo pó… São sítios onde se sente a natureza de forma extrema e se sonha sempre voltar.” Foi precisamente a necessidade de sentir a vida selvagem que, em 2007, levou João Martins Pereira numa viagem ao Parque Natural de Londolozi, uma das mais importantes reservas naturais privadas de África. Os territórios que hoje dão origem ao parque foram adquiridos por volta de 1920 pelas famílias Varty e Taylor, em redor das margens do Rio Areia, na África do Sul. Os novos donos apaixonaram-se pela beleza e estado selvagem da natureza e, sobretudo, pela diversidade e abundância de vida animal. Nessa época, aquela região era um conhecido local de caça, uma terra de sonho para os exóticos safaris tão desejados pela realeza e aristocracia europeia e pelo novo-riquismo americano. Com a morte do fundador, Charles Varty, os descendentes John, Dave e Shan Varty decidiram transformar a propriedade num dos melhores exemplos de protecção e interacção entre o homem e a natureza.
Daí o nome Londolozi que, em zulu, quer dizer “proteger”. A fama da reserva nasceu por causa da política de conservação das espécies, especialmente dos leopardos, que são a sua imagem de marca. Tudo teve início quando John Varty adoptou Manana (que significa “a Mãe”), uma fêmea que, em 14 anos, deu à luz quase vinte crias. A vida e genealogia desses felinos está toda documentada e filmada o que permitiu conhecer a espécie e desenhar estratégias para a preservar.
Hoje todos os descendentes são conhecidos pelos guias da reserva, ainda que pareça impossível distinguir leopardos lado a lado, não fossem eles polvilhados de pintas dos pés à cabeça.
A forma de viabilizar financeiramente este projecto foi transformar a reserva num ecoresort gigante. Com mais de 35 mil hectares, existem apenas 29 chalets ou suites, distribuídas por quatro núcleos, como se fossem pequenas cabanas tribais, mas repletas de luxo e comodidade e plenamente integradas na paisagem. Significa isto que ao longo dos 12 meses do ano apenas algumas dezenas de pessoas “invadem” o espaço. João Martins Pereira foi um dos felizardos, embora tenha sido necessário fazer a reserva com mais de um ano de antecedência. E realizou um sonho: estar no meio da natureza e ter a possibilidade de adorar o animal que mais venera, o leopardo. A excitação com que fala da experiência dá ao olhar um brilho radiante, quase infantil. Perante isso, torna-se difícil contar na terceira pessoa o que por lá viveu. Melhor será “ouvi-lo” em discurso directo: “Os leopardos são a sublimação da vida selvagem, são a máquina perfeita da natureza. Entre os grandes gatos, são os mais bem sucedidos porque se foram adaptando ao meio. São seres solitários, auto-suficientes mas com uma inteligência, aprumo e elegância… Caçam sapos, lebres, lagartos, aves.
Já reparou que se lavam mal acabam de comer, eliminando todos os vestígios de sangue no corpo? Estão sempre impecáveis!” “Nos passeios pelo parque esperávamos longas horas em diferentes locais para os podermos avistar. Cada jipe leva no máximo seis pessoas e, nos locais de paragem, só podem estar no máximo dois jipes. Há uma interacção muito consciente porque os animais reconhecem os veículos e os guias e porque os percursos estão delimitados. Como os jipes são abertos não nos podemos mexer nem fazer barulho, porque os leopardos estão ali mesmo ao nosso lado. São bichos fascinantes!” Mas Landolozi não mexeu só com o caldense.
Dez anos antes da sua viagem, também Nelson Mandela, prémio Nobel da Paz, se rendeu à singularidade do parque: “Durante a minha longa caminhada para a liberdade, eu tive o raro privilégio de visitar Londolozi. Aí eu vi pessoas de to- das as raças viver em harmonia no meio da beleza que a mãe natureza oferece. Londolozi representa um modelo de sonho que eu desejo para o futuro da preservação da natureza no nosso país.” No ano 2000 um acordo histórico entre Moçambique, Zimbabué e África do Sul instituiu o Parque Transfronteiriço do Grande Limpopo, que uniu diferentes parques nacionais, e também Londolozi, numa nova forma de ver a protecção as cercas foram retiradas e os animais podem circular livremente num área maior que o estado de Israel. Além dos leopardos o parque é um refúgio para dezenas de espécies, entre leões, búfalos, girafas, zebras, hipopótamos, elefantes e mais de 200 tipos de aves.
É esta riqueza que faz João Martins Pereira optar por África. O conhecimento que ostenta sobre os hábitos de vida das onças, como também são conhecidos os leopardos, impressiona. Qual David Attenborough, explica com entusiasmo a lei da selva: “Os bebés leopardos vivem numa toca até aos três meses e quando começam a sair são presas muito fáceis. Como não conseguem subir às árvores são caçados por leões, hienas e até por outros leopardos que matam as crias macho, que não são suas.” Fala também de hienas, cães selvagens, leões, chitas… o difícil, quando o tema é a vida selvagem, é terminar a conversa.

A MARCA DO ORIENTE

O facto de não se considerar um mero turista também tem um “preço”. Lidar com as culturas e com o dia-a-dia de populações sem mascaras e rótulos atraentes que se vendem nos pacotes turísticos obriga, como diz João Martins Pereira, “ao confronto com realidades diferentes, onde há carências, debilidades, ameaças, situações dramáticas”. E esse choque cultural cria rupturas: “Viajar faz-nos pensar em opções, em modos de vida e isso, muitas vezes, não nos deixa tranquilos.
Faz-nos pensar que as coisas não são melhores nem piores, são diferentes.
E com isso criamos dúvidas sobre qual é o lado certo.” Foi entre as pessoas e as tradições dos países orientais que viveu grande parte destas tomadas de consciência. Sentiu isso no Vietname, por causa da grandiosidade da Baía de Ha Long; da viagem no delta do rio Mecongue; dos túneis de Cuchi ou das marcas da guerra, ainda visíveis, na antiga cidade de Saigão. Como o próprio resume: “É um país de elevadíssimos contrastes, parece que todo o Oriente se joga ali.” Marcou-o, também, a passagem pelo Camboja, “um país que representa a memória da bestialidade humana, do horror.” Da Índia não se esquece da “intensidade dos cheiros e da cor”, nem “das piores situações de miséria humana que existem nos subúrbios das cidades”.
São viagens que ficam gravadas na mente… e na câmara.

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