AMAZÓNIA

Publicado na revista “Outras Coordenadas”, nº1, Julho/Agosto de 2011

Cristovam (na grafia soletrada pelo próprio) é um índio pequeno e franzino, amazonense legítimo de múltiplas origens e idade incerta. Carrega em si a cartografia das andanças dos antepassados. O pai, peruano, legou-lhe o tipo físico, o cabelo preto sedoso e uns olhos mornos, amendoados, a remeter para um Oriente mais longínquo. Da mãe, cabocla do Brasil, herdou o tom de pele, o humor instantâneo e o jeito característico. Vai ser o meu guia de caminhada pela selva amazónica, com pernoita em abrigo de campanha.

A minha base é um eco-resort, 4 horas de carro a nordeste de Manaus. Deixada para trás a estrada estadual, passamos a estradas e caminhos municipais, atravessamos vilas, lugares e lugarejos cada vez mais pequenos e dispersos. Sorrateiramente, a selva aproxima-se cada vez mais. Um último desvio e entramos numa pista de terra até ao destino final.

As instalações são básicas, mas o sítio é belíssimo, na orla da floresta densa e luxuriante. Sinto-me isolado do Mundo, sem televisão, nem internet, nem telemóveis. Também não há telefone nem comunicação via rádio, porque há duas semanas atrás, no meio de uma trovoada formidável, um raio caiu sobre a antena, destruindo-a sem reparação possível.

Cristovam apresenta-se ao romper da madrugada, carregando todo o equipamento necessário para 2 dias de caminhada: uma mochila pequena (venho depois a descobrir que, lá dentro, tem um impermeável, uma t-shirt, uma rede de dormir e uma lanterna), chapéu e uma faca de mato !!! Por mim, estou dispensado da faca de mato. Ocorreu-me, pela primeira vez, que um rádio de comunicação talvez pudesse ser útil. Partimos depois do pequeno-almoço. À bagagem acrescentámos umas sanduíches e fruta. Urbano, perguntei se não levávamos água. Que não era preciso, na mata havia.

Aos primeiros passos adentro, a floresta torna-se esmagadora, inebriante, alucinante, toma posse de nós. É um mundo fora deste Mundo. À medida que nos embrenhamos na mata, a escala torna-se gigantesca. Os troncos das árvores percorrem dezenas de metros na vertical, tentando romper até à luz do Sol, os fungos têm o tamanho de plantas, as lianas são grossas como ramos. Os insectos são do tamanho de pássaros. A luz, filtrada pela abóbada de folhas lá no alto, chega difusa, recortada. Ao princípio há um trilho visível, depois já não. Meia hora depois, perdi toda e qualquer referência ou ponto de orientação. Estamos no fim da estação seca, o que permite aceder a zonas da floresta mais remotas e baixas, normalmente alagadas. Mesmo assim, a percentagem de humidade no ar é grande e ribeiros de água cristalina cruzam a mata em correntes rápidas, formando, aqui e ali, pequenos lagos. Ocorreu-me, pela segunda vez, que um rádio de comunicação talvez pudesse ser útil.

Cristovam é um guia experimentado e conhecedor, ou pelo menos assim espero. Já trabalhou nas explorações petrolíferas, na borracha, já guiou expedições científicas. Agora dedica-se a passear turistas pela orla da floresta. Suponho que se divirta com o espanto que provoca, mas não sei como se orienta. Abre caminho à facada por entre mato, folhas, lianas, fetos. Vai descobrindo pássaros, insectos, ruídos, plantas, cheiros. Explica com fluência a relação simbiótica entre os indígenas e a floresta, mostra as plantas medicinais, as que dão alimento, as funcionais e utilitárias, as perigosas. Lê a floresta, percebe a linguagem, conhece os sinais. Eu não, o que me dá uma aguda percepção da minha vulnerabilidade, da minha fragilidade, da minha dependência. Ao fim das primeiras horas de caminhada, não sei se estou kilómetros dentro da mata ou apenas a poucas centenas de metros da orla. Ocorreu-me que um rádio de comunicação talvez pudesse ser útil.

Descobre ninhos de tarântula, cavados na terra e camuflados por folhas secas. Com um ramo final e flexível, sonda o buraco até o bicho, imponente e furioso, sair pronto a atacar. Não deixa de ser estranho, ver sair da terra uma aranha do tamanho de um prato de sopa. Apanha uma cobra de metro e meio à mão, após uns passos que me parecem de uma dança ritual mas que o colocam na posição pretendida e lhe permitem agarrar a cobra mesmo atrás da cabeça. Diz-me que é uma jibóia e eu acredito. Chama-me a atenção para uma folha de árvore de um verde luminoso. Quando lhe pega, a ”folha” debate-se, afinal é um insecto, tipo gafanhoto, de 15 cms de comprimento.

De repente, estaca, fica imóvel e faz-me sinal para ficar igualmente quieto e silencioso. Fareja o ar e murmura: “Tá sintindo esse chêro ruim ?” Ainda não, continua a cheirar-me apenas a selva húmida. Uns passos cautelosos mais adiante e um odor forte, pestilento e adocicado começa realmente a instalar-se. “Tá algum bicho morto aqui por perto. Vou dar uma olhada, sai daqui não.” Aí está uma instrução que eu cumpro com prontidão. Cristovam desaparece silenciosamente no meio da mata, na direcção do cheiro a morte. Fico, mudo e quedo, a pensar no que aconteceria se, por qualquer razão, não conseguisse voltar. Ocorreu-me, de novo, que um rádio de comunicação talvez pudesse ser útil.

Volta algum tempo depois (pareceram-me muitos minutos, mas talvez não fossem assim tantos) com a explicação “A onça matou um porco grandão bem ali. Tem uns dois dia. Comeu uma metadi e deixou o resto pra depois, quem sabi a onça ainda tá por aqui. Vambora, o sítio tá meio perigoso”. A onça-pintada, ou jaguar (Panthera onca) é o terceiro maior felino do mundo, a seguir ao tigre e ao leão. É, basicamente, um leopardo muito maior e muito mais forte que o seu parente africano. Nesta região amazónica, os números são ainda abundantes, não correndo perigo de extinção. Na estação seca, a caça, principalmente porcos selvagens, com uma maior área de movimentação, torna-se mais dispersa. É então que a onça se aventura mais, frequentemente até zonas habitadas onde ataca vacas, cabras e porcos domésticos, que arrasta facilmente para a mata. Podia ter um animal destes a metros à minha frente, atrás de mim, na árvore ao meu lado, a seguir atentamente cada passo, cada movimento meu. Ocorreu-me que um rádio de comunicação seria certamente útil, e que uma faca de mato talvez não fosse suficiente.

Pelos insondáveis trilhos da mata, Cristovam chegou ao abrigo para a noite. Numa clareira, à beira de um ribeiro de água corrente, uma estrutura em madeira, construída em altura, com três patamares, ligados entre si por uma escada muito estreita. Procura rastos recentes junto à água “porque a onça vem aqui pra bebê. Subir até lá em cima, não sobi não que a escada é muito estreita pra ela”.Subimos até ao último patamar, a uns 10 metros do chão, para montar as redes. O facto de lá estar um cesto com o jantar, trouxe-me de volta à realidade e fez-me perceber que não estaríamos assim tão longe da base.

Cristovam contou-me histórias de expedições anteriores, semanas em autosubsistência pela selva, que me reduziram à minha condição de aventureiro de avenida. Contou-me, também, a história do seu pai peruano, que trabalhava na desmatagem de uma zona remota, perto da fronteira com o Peru. Uma manhã “foi sozinho na mata e a onça o matou só na maldadi”.

Subi para a rede, adormeci ao som dos extraordinários sons da Natureza e sonhei com a onça.

Ocorreu-me que levar um rádio de comunicação teria sido um disparate, inútil e sem sentido.

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