A Gazeta das Caldas e eu

                                                         

Há uns anos, mais propriamente em 2007, o Luís Costa Leal pediu-me um texto para publicar no Suplemento dedicado à Lagoa que a Associação Mar d’Água editava na Gazeta das Caldas.

A Lagoa está inscrita no meu ADN emocional, é, como lhe chamei na galeria de imagens do site, “Mi Patria Chica”.

À Gazeta ligam-me, por várias razões, laços de profunda e emotiva afectividade.

O meu Pai, nas muitas quimeras que cultivava, teve na Gazeta, em várias condições, funções e estatutos, umas das suas paixões maiores.

Nos idos de 72/73, a Gazeta publicou (creio que) dois números de um Suplemento chamado “Análise”. Dada a situação vigente, as tensões socio-políticas da região – a proximidade de Lisboa e das crises académicas, a tradição republicana e oposicionista das Caldas personificada na família Freitas, as desventuras permanentes do CCC – Conjunto Cénico Caldense  com a censura, os ecos próximos das lutas dos vidreiros da Marinha Grande, a perspectiva da Guerra Colonial – entregar a concepção e edição de um suplemento cultural a um grupo de jovens idealistas foi seguramente um arrojo (perigoso !) para a época. Eu era dos mais novos, talvez o mais novo de todos, de um grupo onde estavam o meu primo Zé Sancho, o Santiago Freitas, o Manuel Nunes, o Joca Ferreira, o Rogério Matias, entre outros.  Alguns já estavam em Lisboa na Universidade, outros (como eu) ainda penavam pelas agruras do 7º ano do Liceu. O facto é que os dois números que conseguimos publicar  não foram do agrado de uns tais senhores  que, à época, eram donos da inteligência, do pensamento e da expressão e a Gazeta foi (pouco) subtilmente “aconselhada” a suspender o “Análise”. Outros tempos ….

Desse grupo, creio que já não chegou a fazer parte o Zé Luís Almeida e Silva que, nessa altura e após cumprir a recruta no serviço militar, já teria procurado os ares mais desanuviados de Paris. O Zé Luís é, desde há anos a esta parte, um paladino da imprensa regional e Director da Gazeta.

O texto que escrevi, a muito custo e alguma dor, foi este –

Outubro de 1967

Chamo-me João Filipe e já fiz 10 anos. A minha irmã Susana tem 7 anos e como não sabia dizer o meu nome, chamava-me Japi.

Estou muito contente, já fiz a 4ª classe e o meu Avô Filipe deu-me um relógio. O meu Avô João já morreu e nunca o conheci.

Andei na Escola da Praça do Peixe e o meu Professor chamava-se Diniz. Tenho muitos colegas, o Zé Clérigo, o Rogério Abreu, o Fabian, o Ernesto que é da Guiné, o Moreno, o Serralha, o Zé Agnelo, o Mané e outros. Aprendi a ler, a escrever e a contar e sei os rios, as serras e os caminhos-de-ferro da Metrópole, de Angola e de Moçambique, foi assim que me ensinaram.

Agora vou para uma escola nova, chama-se Telescola e parece que as aulas são pela televisão. Não sei bem como é.

Moramos na Rua Capitão Filipe de Sousa, mesmo em frente à Garagem dos Abrantes. A nossa casa, onde eu nasci, faz esquina para a Rua do Jardim.

Faço colecção de caramelos, tenho a caderneta e uma data de repetidos, que troco na escola. Tenho a equipa do Benfica toda, o Eusébio, o Torres, o Coluna, o Simões, o Costa Pereira e os outros todos. Todas as semanas compro 5 tostões na loja do Sr. Martins, na esquina da Rua das Montras. Estou à espera que me calhe o nº da bola, para ficar com a bola que está lá, pendurada por cima da lata dos caramelos.

O ano passado estive doente, fui operado no Montepio e podia ter morrido. A minha Mãe diz que foi o Dr. Ernesto Moreira que me salvou. Ainda me lembro de ir todos os dias ao tratamento, fazer o penso com a Maria do Carmo.

Este ano já posso brincar à vontade e jogar pingue-pongue. O meu Pai jogava pingue-pongue no Sporting das Caldas com o Carlos Branco, o António Tavares, o Mário Capinha Reis, o Carlos Alves. Tiraram-me uma fotografia em cima da mesa, equipado como eles.

Eu jogo pingue-pongue em dois sítios. Aqui, na Rua do Jardim, às vezes jogo no Sindicato, mas a maior parte das vezes jogo no Parque, na Casa dos Barcos. Quem aluga as mesas é a D. Adelaide, que guarda a minha raquete dentro do armário. O marido dela é o Sr. Celestino, que foi guarda do Parque mas agora está doente e anda numa cadeira de rodas com o Chico, que é o cão mais gordo que eu já vi.

O Verão já acabou mas fui muitas vezes à praia da Foz, na camioneta dos Claras. A minha Mãe diz que a praia faz bem é de manhã, só que às vezes está tanto frio e tanto nevoeiro que temos que ficar fechados na barraca até ao meio-dia, a jogar às cartas e ao prego. Às vezes a minha Mãe dá-me dinheiro para comprar batatas fritas ou uma bola-de-berlim ao Justiça, que anda pela praia sempre de fato branco.

A Aberta este ano estava fechada. Para se lá chegar tem que se andar muito, subir e descer as dunas que mudam de lugar. Acho que é o vento que as empurra. Chegamos lá cansados e depois temos que voltar tudo para trás.

A Lagoa é muito grande. Apanha-se berbigão, amêijoa, ostras, camarão, caranguejos e pescam-se enguias, robalos, douradas, sargos, linguados. Nas pedras do Mar há muitos percebes e mexilhões.

Não fiz nenhuma viagem, só o que vejo na televisão e nos livros, mas acho que a Lagoa deve ser o sítio mais bonito do Mundo.

Outubro de 2007

Já fiz 50 anos. Guardo a nostalgia do João Filipe de há 40 anos atrás, que agora só os mais próximos e mais antigos conhecem e usam. Japi, só mesmo os que me conhecem de criança e, com os anos, vão sendo menos. Sou agora, mais vezes e para mais gente, João Martins Pereira, chamando a mim o apelido do meu Pai. A vida profissional tirou-me a familiaridade do nome próprio, tratamento pouco habitual na formalidade bacoca da nossa sociedade.

Cedo tive que procurar caminho próprio e lutar por melhores oportunidades. Como se diz, nem sempre de forma apreciativa, a Vida tirou-me das Caldas, mas não tirou as Caldas de mim. No meu caso, com muito orgulho, porque aqui estão as minhas remotas das minhas memórias, aqui está a minha gente, aqui estão os Amigos que guardo de há 40 anos até hoje. É aqui que eu pertenço, é aqui o meu porto seguro.

Ao longo destes 40 anos, quase tudo mudou. O Mundo mudou, o País mudou, as Caldas mudaram, nós próprios mudámos. Não tenho sequer a certeza que tudo tenha mudado sempre para melhor, o tempo faz o seu trabalho inclemente, deixando marcas nos corpos e nas almas. Somos hoje, afinal, o resultado do que fomos antes. Conheço hoje mais coisas do que há 40 anos, mas devo saber menos, porque tenho mais dúvidas do que tinha nessa altura.

Muitos dos nossos, e mesmo alguns de nós, já deixaram o porto, embarcaram na viagem grande. Cada um que parte, e tantos nos deixaram de forma tão estúpida, inesperada, injusta e prematura, faz-nos mais um buraquinho na alma e no ser, que nunca mais conseguiremos tapar. Foi assim com o meu Pai, assim foi com Amigos que nos deixaram.

Percorro hoje as Caldas à procura dos pontos cardeais da memória.

A casa onde nasci já não existe, a Garagem dos Abrantes é hoje o Mercado do Peixe, a minha escola está em ruínas, o Pinheiro Chagas e o Ibéria desapareceram há muito, a Praça do Peixe transformou-se numa inenarrável instalação, os Pavilhões do Parque continuam sem solução, a Quinta da Boneca foi urbanizada, os nossos campos de futebol desapareceram.

A minha cidade cresceu mas parece ter embaciado, perdeu o brilho. O trânsito tornou-se caótico, o ordenamento urbanístico incompreensível. Vejo a cidade sem uma grande manifestação cultural de referência, sem uma oferta turística de qualidade, sem um factor diferenciador que a salve da mediania e da mediocridade. Quem frequentou a Praça, à noite, há 30 anos, com a Zaira, o Convívio, o Bocage, o Central, o Lusitano e a Flor de Liz a funcionar em pleno e com frequência certa e fiel, lembra-se de centenas de pessoas a circular (os grupos das “piscinas”). Quem a visitar hoje encontra um deserto.

E vejo, principalmente, a asfixia da Lagoa da Foz, o abraço da morte que, ao longo dos anos, tem vindo a ficar cada vez mais apertado. Aos atentados ecológicos dos anos 60 e 70 (abertura do canal da Aberta por meios mecânicos motivada por interesses económicos, extracção descontrolada de areias destruindo as dunas móveis, despejo de esgotos, construção clandestina nas margens) seguiram-se décadas de abandono, falta de investimento, questiúnculas políticas e de poder. A Lagoa esteve às portas da morte. Perdeu-se tempo precioso. Se bem se recordam, já o tema do Pavilhão da Dinamarca na Expo98 (pois é, já lá vão outros 10 anos) era a nossa Lagoa e a proposta de desaçoreamento.

Hoje, pelo menos, o problema do saneamento parece estar em grande parte resolvido e o efeito imediato é visível. Vi, este Verão, um bando de mais de 60 flamingos na Lagoa. É a Natureza a confirmar que o esforço vale a pena, que o contributo, o empenho e a vigilância de todos são necessários. A ensinar-nos a querer perpetuar no tempo o nosso património de cultura e de afectos.

Pela minha parte, chego aos 50 anos reconhecido à Vida, que tem sido generosa comigo, proporcionando-me o que há 40 anos não sabia existir e o que há mais de 30, quando saí das Caldas, não sonhava sequer poder alcançar.
Acabei, por acasos vários da Vida e das andanças pelo Mundo, por conhecer Pessoas e personalidades, intelectuais e políticos, ricos e poderosos.

Mas é ainda e sempre com alegria e orgulho que, 40 anos passados, volto a dar um abraço ao Mané, quando passo pela Mercearia Pena e o reencontro no seu honesto trabalho ao balcão.

Por razões profissionais e por gosto pessoal, corri grande parte do Mundo. Vivi alguns anos noutros países, conheci outras gentes, outros costumes e outras culturas. Vi caprichos da Natureza, paisagens exóticas, obras fantásticas e belezas naturais inexcedíveis.

Procurei muitas vezes a Estrada de Damasco. Estou agora convencido que começa ali na Rainha e é cada vez com mais emoção que faço a Estrada da Foz.

Há poucos anos, tive possibilidade de concretizar o sonho de ter uma casa na Foz. E agora, como sempre, sempre que acordo e olho lá para fora, sempre que olho para a Lagoa à noite, sinto que este é o mapa da minha memória, que este é o meu lugar.

Hoje já não tenho dúvidas, a Lagoa é o sítio mais bonito do Mundo. E eu estou a voltar para casa.

4 responses to “A Gazeta das Caldas e eu

  1. És um felizardo pois sabes onde …é casa…
    Eu penso que já não vou encontrá-la… pois na que nasci vou vender…na que vivo não quero morrer… resta-me apenas esperar que pelo menos na dos 60 vou entrar.
    Grande abraço do Joaquim

  2. Margarida Araújo

    Gostei muito do que li. Recordei pela tua mão algumas ruas das Caldas e um tempo, também da minha infância.
    Voltar a casa é sempre bom. Gosto de te saber vigia do Gronho e da Aberta, do sol gordo e das nebelinas frequentes. Às vezes numa curva da estrada encontro-te. E isso é bom. São deste afectos que se costuram dias felizes. Beijo.

    • Destes afectos e doutros, também. Os dos Amigos, os nossos, os de sempre, os que foram e são e hão-de ser, os que não nos faltarão mesmo quando a distância e a Vida nos aparta.

      A névoa empapada e a pedra bruta do Gronho são do mesmo feitiço.

      Às vezes, numa Aberta, encontramos os nossos.

      Beijo

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