Jean Giraud, aka Moebius (1938-2012)

Morreu, no passado dia 10, Jean Giraud / Gir / Moebius um dos mais importantes e inspirados ilustradores do sec XX. Apesar de que rotular Jean Giraud como ilustrador é, certamente, redutor. Para além dos sucessivos saltos quânticos que introduziu na banda desenhada, propriamente dita, ilustrou histórias de ficção científica, romances (veja-se a edição ilustrada de «O Alquimista», de Paulo Coelho), foi autor de story-boards, cenógrafo, figurinista, sempre com igual competência e talento inovador.

A sua ligação ao cinema, longa apesar de intermitente, tornou-se notória no “O Quinto Elemento”, de Luc Besson, com concepção gráfica do próprio Giraud e onde as influências de “O Incal” são evidentes (aliás, tão evidentes, que acabariam em processos judiciais interpostos contra Besson, por alegado plágio). Contudo, a lista é vasta e o seu nome fica tambem ligado a filmes como Dune, Alien, Little Nemo ou Death Note.

Contudo, é na banda desenhada que Giraud/Moebius deixa o(s) seu(s) nome(s) gravado(s) a tinta indelével.

Enquanto Giraud e  ao longo dos 29 volumes da série principal, não contando os satélites e apêndices, nem os 3 últimos já na nova condição de “Marshall”, criou, em traços firmes e fortes, o universo e a figura do Tenente Blueberry. Inicialmente com texto de Jean-Michel Charlier, o Tenente Blueberry é um personagem fascinante, o oposto do cow-boy arrumadinho que cavalga em direcção ao pôr-do-sol, depois de salvar a donzela em perigo. Imprevisível e contraditório,  Mike S. Donovan aka Mike Steve Blueberry, oscila entre as duas margens da lei,  renegado ou justiceiro, defensor de causas ou pistoleiro, tenente do exército ou jogador. A série recria admiravelmente o imaginário do Far-West dos Estados Unidos, das pradarias ao Novo México, invoca referências históricas marcantes, desde  a  Guerra da Secessão à construção do Caminho de Ferro, e cruza coloridas personagens ficcionais (Jimmy Mcclure ou Chihuahua Pearl) com personagens reais (Cochise ou Wyatt Earp). Blueberry é o verdadeiro anti-um herói. Corram e voltem a reler o Tenente Blueberry.

Contudo, Giraud é um dos casos em que a Criatura poderá ter suplantado o Criador. E a notoriedade bateu à porta de Moebiuso alter-ego que criou na área da ficção científica e do futurismo fantástico. Neste campo é, inclusivamente, difícil rotulá-lo, tantos foram os caminhos novos que abriu, conjuntamente  com Alejandro Jodorowski, chileno de nascimento e uma personalidade fascinante, desdobrada em realizador, dramaturgo, actor, mimo, argumentista, guia espiritual, guru psíquico, tarólogo, terapeuta e sabe-se lá que mais. A colaboração entre ambos foi, aliás, iniciada no cinema, em Alien e Dune, por exemplo.

Para a história da BD (a tal 8ª Arte), como ponto marcante, ficam as séries dos anos 80, O Incal e A Casta dos Metabarões, que desenhou com roteiro de Jodorowski. Os 6 volumes que constituem o núcleo principal do Incal, mais os 8 reunidos em A Casta dos Metabarões são uma referência maior no universo dos “quadradinhos”. O meu favorito é, sem sombra de dúvida, o Incal. Fazendo eco do psiquismo activo de Jodorowski, a maior das personagens do Incal são baseadas nas cartas do Tarot, sendo clara a coincidência entre John  Difool e O Louco (John, The Fool)

Algures no distante tempo futuro, na capital distópica de um pequeno planeta, de um império galáctico dominado por humanos, o detective privado John Difool recebe um cristal de incríveis poderes, o Incal Luminoso, das mãos de um Berg, criaturas alienígenas sob a forma de pássaros sem penas, moribundo. O Incal Luminoso é ferozmente disputado por diversos grupos: os Bergs, o corrupto governo galáctico, os rebeldes Amok, os Technopadres – uma seita tecnológica que adora o Incal Negro – e até Animah, a guardiã do Incal Luminoso, irmã de Tanatah, a guardiã do Incal Negro.

Em permanente aventura, John Difool e Deepo – uma gaivota de cimento, seu companheiro e consciência oculta – cruzam-se ao longo da saga com diversos personagens fantásticos, ora aliados ora perseguidores implacáveis, consoante os interesses do momento:

  • o Metabarão, o maior mercenário e caçador de cabeças do Universo, contratado por Tanatah para matar John  Difool. É pai adoptivo de Solune.
  • as irmãs Animah e Tanatah, guardiãs do Incal Luminoso e do Incal Negro, respectivamente, donas de poderes psíquicos imensos. Tanatah é a lider dos rebeldes Amok.
  • Solune, um messias andrógino, filho adoptivo do Metabarão. É, na realidade, filho biológico de Animah e John Difool.
  • Kill, um lobo antropomórfico mercenário, ao serviço de Tanatah. Inimigo mortal de John Difool, desde que este lhe furou uma orelha com um tiro.

 

Entre nós, o Incal foi publicado pelas editoras Futura e Meribérica.

Para ler, reler e apreciar o talento imenso de Giraud / Moebius.

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