Millôr Fernandes (1923-2012)

Ontem partiu um génio. Com o toque de loucura próprio de todos os génios. Nasceu para ser Milton, mas um erro administrativo do registo fê-lo Millôr para toda a vida.

Jornalista, cronista, escritor, tradutor, dramaturgo, artista plástico, humorista, pensador, brilhante e genial em todas as frentes.

Partiu a alma criadora do Pif-Paf e do Pasquim, uma publicação odiada mas temida pela intelligentzia reinante na época negra da ditadura militar brasileira pela sua inspiração iconoclasta, subversiva, inteligente, revolucionária. Pelo Pasquim passarm grandes vultos das letras e das artes brasileiras, Jaguar, Tarso de Castro, Ziraldo, Henfil, Paulo Francis, Ruy de Castro. E Millôr. E, mais tarde, Chico, Glauber Rocha.

A sua ligação a Portugal foi longa e profunda. Escreveu no finado Diário Popular durante anos a fio e até consta que era lido por Salazar. Que, estranhamente, o apreciaria. As suas amizades em Portugal eram fortes e conhecidas. Aquando da morte de Raul Solnado, escreveu na Veja um texto belíssimo que terminava assim “Raul foi meu amigo a vida inteira. A dele. Traidor, continuo na minha.”

O Brasil perdeu uma das suas referências maiores da modernidade de pensamento, do humanismo esclarecido. A Língua Portuguesa perdeu uma figura maior. O Mundo perdeu graça e talento.

Millôr descrevia-se assim

(Autobiografia De Mim Mesmo À Maneira De Mim Próprio)

“E lá vou eu de novo, sem freio nem pára-quedas. Saiam da frente, ou debaixo que, se não estou radioativo, muito menos estou radiopassivo. Quando me sentei para escrever vinha tão cheio de idéias que só me saíam gêmeas, as palavras — reco-reco, tatibitate, ronronar, coré-coré, tom-tom, rema-rema, tintim-por-tintim. Fui obrigado a tomar uma pílula anticoncepcional. Agora estou bem, já não dói nada. Quem é que sou eu? Ah, que posso dizer? Como me espanta! Já não fazem Millôres como antigamente! Nasci pequeno e cresci aos poucos. Primeiro me fizeram os meios e, depois, as pontas. Só muito tarde cheguei aos extremos. Cabeça, tronco e membros, eis tudo. E não me revolto. Fiz três revoluções, todas perdidas. A primeira contra Deus, e ele me venceu com um sórdido milagre. A segunda com o destino, e ele me bateu, deixando-me só com seu pior enredo. A terceira contra mim mesmo, e a mim me consumi, e vim parar aqui.”

”… Dou um boi pra não entrar numa briga. Dou uma boiada pra sair dela….Aos quinze (anos) já era famoso em várias partes do mundo, todas elas no Brasil. Venho, em linha reta, de espanhóis e italianos. Dos espanhóis herdei a natural tentação do bravado, que já me levou a procurar colorir a vida com outras cores: céu feito de conhas de metal roxo e abóbora, mar todo vermelho, e mulheres azuis, verdes ciclames. Dos italianos que, tradicionalmente, dão para engraxates ou artistas, eu consegui conciliar as duas qualidades, emprestando um brilho novo ao humor nativo. Posso dizer que todo o País já riu de mim, embora poucos tenham rido do que é meu.”

”Sou um crente, pois creio firmemente na descrença. …Creio que a terra é chata. Procuro não sê-lo. …Tudo o que não sei sempre ignorei sozinho. Nunca ninguém me ensinou a pensar, a escrever ou a desenhar, coisa que se percebe facilmente, examinando qualquer dos meus trabalhos.”

”A esta altura da vida, além de descendente e vivo, sou, também, antepassado. É bem verdade que, como Adão e Eva, depois de comerem a maçã, não registraram a idéia, daí em diante qualquer imbecil se achou no direito de fazer o mesmo. Só posso dizer, em abono meu, que ao repetir o Senhor, eu me empreguei a fundo. Em suma: um humorista nato. Muita gente, eu sei, preferiria que eu fosse um humorista morto, mas isso virá a seu tempo. Eles não perdem por esperar.”

Escrevia assim –

“… Eva, de repente, descobrindo uma bela cascata, resolveu tomar um banho de rio. A criação inteira veio então espiar aquela coisa linda que ninguém conhecia. E quando Eva saiu do banho, toda molhada, naquele mundo inaugural, naquela manhã primeval, estava realmente tão maravilhosa que os anjos, arcanjos e querubins, ao verem a primeira mulher nua sobre a Terra, não se contiveram, começaram a bater palmas e a gritar, entusiasmados: “O AUTOR! O AUTOR! O AUTOR!”.

“P.S. – Este discurso do Todo-Poderoso está sendo divulgado pela primeira vez em todos os tempos, aqui neste livro. Nunca foi publicado antes, nem mesmo pelo seu órgão oficial, A BÍBLIA.”

“Minha cara,

eu te criei porque o mundo estava meio vazio, e o homem, solitário. O Paraíso era perfeito e, portanto, sem futuro. As árvores, ninguém para criticá-las; os jardins, ninguém para modificá-los; as cobras, ninguém para ouvi-las. Foi por isso que eu te fiz. Ele nem percebeu e custará os séculos para percebê-lo. É lento, o homenzinho. Mas, hás de compreender, foi a primeira criatura humana que fiz em toda a minha vida. Tive que usar argila, material precário, embora maleável. Já em ti usei a cartilagem de Adão, matéria mais difícil de trabalhar, mais teimosa, porém mais nobre. Caprichei em tuas cordas vocais, poderás falar mais, e mais suavemente. Teu corpo é mais bem acabado, mais liso, mais redondo, mais móvel, e nele coloquei alguns detalhes que, penso, vão fazer muito sucesso pelos tempos a fora. Olha Adão enquanto dorme; é teu. Ele pensara que és dele. Tu o dominarás sempre. Como escrava, como mãe, como mulher, concubina, vizinha, mulher do vizinho. Os deuses, meus descendentes; os profetas, meus public-relations, os legisladores, meus advogados; proibir-te-ão como luxúria, como adultério, como crime, e até como atentado ao pudor! Mas eles próprios não resistirão e chorarão como santos depois de pecarem contigo; como hereges, depois de, nos teus braços, negarem as próprias crenças; como traidores, depois de modificarem a Lei para servir-te. E tu, só de meneios, viverás.

Nasces sábia, na certeza de todos os teus recursos, enquanto o Homem, rude e primário, terá que se esforçar a vida inteira para adquirir um pouco de bens que depositará humildemente no teu leito. Vai! Quando perguntei a ele se queria uma Mulher, e lhe expliquei que era um prazer acima de todos os outros, ele perguntou se era um banho de rio ainda melhor. Eu ri. O homem e um simplório. Ou um cínico. Ainda não o entendi bem, eu que o fiz, imagina agora os seus semelhantes.

Olha, ele acorda. Vai. Dá-me um beijo e vai. Hmmmm, eu não pensava que fosse tão bom. Hmmmm, ótimol Vai, vai! Não é a mim que você deve tentar, menina! Vai, ele acorda. Vem vindo para cá. Olha a cara de espanto que faz. Sorri! Ah, eu vou me divertir muito nestes próximos séculos!”

(in “Esta é a verdadeira história do Paraíso”),

Tinha (muita) graça assim –

A verdadeira amizade é aquela que nos permite falar, ao amigo, de todos os seus defeitos e de todas as nossas qualidades.

Viver é desenhar sem borracha.

Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.

Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor.

De todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha do que a abstinência.

Não devemos resistir às tentações: elas podem não voltar.

O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde.

E desenhava assim –

Que descanse em Paz.

2 responses to “Millôr Fernandes (1923-2012)

  1. Ficamos todos mais pobres…e mais sózinhos…com menos para sorrir…
    Obrigado por me teres alertado.

  2. Somos cada vez menos …
    Obrigado por teres reparado e comentado.
    Abraços

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