Robert Doisneau (1912 – 1994)

O Artista

No sábado passado, assinalou-se o centenário do nascimento de Robert Doisneau, o fotógrafo das ruas e das pessoas de Paris. Um dos precursores da verdadeira “street photography”, as imagens ternas, irónicas, incongruentes de Doisneau retratam a fragilidade humana, atravessando classes sociais. Tornam-se ícones de Paris.

Robert Doisneau, um Mestre, tímido e modesto.

Começou por estudar gravura na sua cidade natal de Gentilly, Val-de-Marne. Cedo concluiu que o curso não lhe abria as portas da expressão artística que procurava.

Teve os primeiros contactos com a fotografia no departamento de publicidade da empresa farmacêutica onde trabalhou. Começou por fotografar detalhes de objectos, em estúdio e publicou a sua primeira história em imagens no jornal Excelsior, em 1932.

Trabalhou com o escultor André Vigneaux e foi empregado da fábrica Renault, como fotógrafo técnico e de publicidade. Contudo, um horário de trabalho rígido não pareceu fazer o género de Doisneau e acabou, previsivelmente, despedido em 1939.

O recrutamento para a Segunda Guerra Mundial encontrou-o já como fotógrafo na Agência Rapho. Integrou as fileiras da Resistência na dupla condição de soldado e fotógrafo. Então sim, fez bom uso da sua formação como gravador para falsificar passaportes, salvo-condutos e documentos de identificação.

Fotografou, como ninguém, a Ocupação e Libertação de Paris.

Era, assumidamente, influenciado por Atget, Bresson e Kertész

(nesta foto, com Kertész)

Retomou a actividade de fotógrafo nas Agências Alliance e, de novo, Rapho. Voltou a navegar nas águas livres, tão suas, de freelence, fotografando para a Life e outras publicações de referência. Ao arrepio da sua personalidade e, talvez, gosto, fez fotografia de sociedade e moda para Paris Vogue, entre 1948 e 1951. Mais a seu gosto, fez retratos fantásticos de artistas da Paris da época, Giacometti, Cocteau, Leger, Braque e Picasso (ambos abaixo)

20 livros e muitas homenagens, distinções e retrospectivas depois, partiu tão discretamente como viveu, em 1994.

O Conceito

Les merveilles de la vie de tous les jours sont excitantes ; aucun réalisateur de cinéma ne peut mettre en scène ce que vous voyez dans la rue.”

A Imagem

A assinatura artística de Robert Doisneau traduz-se (injustamente, para o seu grande talento fotográfico) numa imagem, “O Beijo”.

Curiosamente, a fotografia tem uma história por detrás.

Em 1950, a Life encomendou a Doisneau uma série de fotografias de casais em Paris, para ilustração de uma artigo de fundo. “O Beijo” foi apenas uma delas que, alias, passou despercebida durante anos.

Em 1986, Doisneau autorizou a reprodução da sua imagem em posters publicitários. E aqui começa a história que, como qualquer boa narrativa, tem um final inesperado.

Com a divulgação pública da imagem, apareceram vários “candidatos” a protagonistas. Dois desses chegaram mesmo a processos judiciais.

Num deles, Jean and Denise Lavergne procuraram Doisneau para o “informar” de que, sendo o jovem casal da fotografia deveriam ter participação nos direitos de reprodução. Sem resposta, acabaram por processar o fotógrafo por uso abusivo da sua própria imagem.

Um segundo processo foi interposto por Françoise Delbart, também reclamando participação nos direitos de reprodução.

A contas com os procedimentos judiciais, Doisneau decidiu, então, revelar a história, confirmando que se tratava de uma imagem … encenada.

Doisneau tinha efectivamente visto Françoise Delbart e Jacques Carteaud beijarem-se apaixonadamente. Azar,coisas do filme e das máquinas manuais, falhou o momento.

Pediu-lhes então que repetissem o gesto, desta vez em pose para a objectiva. Acabou por fotografá-los em três locais diferentes de Paris, incluindo o definitivo, no Hôtel de Ville. Como agradecimento, ofereceu a Françoise uma cópia da fotografia, selada e autografada, que a conservou pelos 55 anos seguintes.

As acções judiciais foram julgadas improcedentes.

Françoise leiloou a sua fotografia em 2005, por 242 mil dólares. Nas suas próprias palavras, “a fotografia foi encenada, mas os beijos foram bem reais”.

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