Mauro Pinto

 

 O fotógrafo moçambicano Mauro Pinto foi o grande vencedor da 8ª edição do BESPhoto, com uma belíssima série de 12 imagens feitas em habitações da Mafalala, bairro periférico, mas histórico, da cidade de Maputo. Da Mafalala saíram para o Mundo, entre outros, José Craveirinha, Eusébio e Lurdes Mutola.

 A este projecto, trabalhos notáveis de luz, composição e coerência, chamou “Dá licença”, afinal a palavra-passaporte, tão ao jeito da simplicidade Moçambicana, usada que adentrar este(s) universo(s) de vida de uma outra cidade – nascida  de uma outra realidade económica, social, racial – avistando, lá em baixo, a então “cidade dos brancos”.

Nas palavras do próprio Mauro, “Dá Licença” foi feito, entre Novembro de 2011 e Janeiro de 2012, a minha senha de entrada para a realização deste projecto fotográfico. O que desenho nesta proposta não é um mapa, não são apenas linhas topográficas desse tecido urbano, demarcando limites (outrora coloniais), entre a “cidade de cimento” e esta outra, de origem temporária, com seu pulsar sujeito à especulação imobiliária. O que trago para aqui é uma certidão de nascimento narrativa, pessoal e colectiva. É uma árvore genealógica descrita nestes móveis, nesta luz, nestas bugigangas, pertencentes a estes negros, mestiços, emigrantes, imigrados, resistentes. “Dá licença” passa assim a ser uma interjeição positiva para iniciar um relato e afirmar uma existência.

Tive o gosto de conhecer o Mauro  através de Amiga comum, a médica-fotógrafa  Clara Ramalhão, moçambicana  de nascimento e apaixonada pela imagem, tanto na abordagem científica como na fotográfica.

No Mauro, para alem do artista, fotógrafo rigoroso e competente, encontrei um homem socialmente atento e interventivo e uma personalidade de simpatia e simplicidade cativantes. É bom e reconfortante ver premiado um fotógrafo com uma trabalho sério, consistente e competente e uma pessoa totalmente alheia aos tiques, já abomináveis, de pedantes pseudo-intelectuais com tristes intervenções “conceptuais”, supostamente fotografia.

A decisão do Juri “resulta da forma como esta série revela a entrega do artista à realidade das pessoas que habitam os espaços aqui retratados, ao mesmo tempo que transmite uma perspectiva histórica e sociológica da realidade contemporânea moçambicana através deste bairro da capital. É de destacar a forma como o artista utiliza a luz dando vida aos elementos presentes. Da cor aos objectos, é de realçar a capacidade com que o seu trabalho nos transporta para uma realidade habitada. Sem artifícios na sua essência, a consistência da apresentação do trabalho de Mauro Pinto foi um factor decisivo na escolha do vencedor. Igualmente relevante é o facto de terem sido tiradas cerca de mil fotografias, entre as quais, o artista seleccionou o conjunto de doze que deu origem ao projecto expositivo apresentado.”

Muitos parabéns ao Mauro.

Mauro Pinto (1974) nasceu em Maputo, onde vive e trabalha. Dos primeiros contactos com o fotógrafo português Alexandre Júnior, durante a sua adolescência, surgem as primeiras experiências no domínio da fotografia. No final dos anos de 1990 fez um curso de fotografia na Monitor Internacional School (Joanesburgo), e, pela mesma altura, um estágio com o fotógrafo José Machado, assumindo desde logo como profissão a atividade fotográfica. Em 2002 integra pela primeira vez a PhotoFesta – Festival Internacional de Fotografia (Maputo), voltando a participar na edição de 2006. Em 2003 participa nos Rencontres de Bamako, Biennale Africaine de la Photographie e na coletiva Saudade de L’espoir (Ilha da Reunião). Em 2004 apresenta o seu trabalho na 35.ª edição de Les Rencontres d’Arles e nas III Jornadas África-Brasil (Brasília), e, no ano seguinte, no Fórum Social Mundial (Porto Alegre). Em 2006 integra a exposição Réplica e rebeldia, apresentada em Maputo, Luanda, Praia, Salvador da Bahia, Brasília e Rio de Janeiro. Participa ainda na exposição Vers Matola no Espace 1789 Saint-Ouen, em Paris. Em 2008 integra a primeira edição da bienal Picha! Les Rencontres de l’image de Lubumbashi. No ano seguinte, integra a exposição Maputo, a Tale of One City, que inaugura no Oslo Museum e percorre diferentes cidades da Noruega, e a 2.ª Bienal de Arte Contemporânea de Salónica. Já em 2010, participa mna coletiva Ocupações temporárias 20.10 (Maputo), no Festival mondial des arts nègres (Dakar), e na 2.ª edição de El Ojo Salvaje – Segundo Mes de la Fotografia en Paraguay, sendo o primeiro artista africano a integrar aquela mostra. A sua primeira exposição individual realizou-se em 2002 na Fortaleza de Maputo, destacando-se, as seguintes: Portos de convergência (Centro Cultural Franco-Moçambicano, Maputo, 2005), Lubumbashi interiores – exteriores (Lubumbashi, 2007), Uma questão de Estado (Rua D’Arte, Maputo, 2010); e, em Portugal, Maputo – Luanda – Lubumbashi (Influx Contemporary Art, Lisboa, 2011).

(in, Catálogo BESPhoto)

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