Bernardo Sassetti (1970 – 2012)

Desapareceu, tragicamente como acontece a muitos dos que mudam o Mundo, Bernardo Sassetti.

Partiu antes do tempo, injusta, súbita e estupidamente. As circunstancias, ate hoje pouco conhecidas, serão investigadas pelos cânones habituais, com as competências e as limitações que se lhes reconhecem. Não tenho a certeza que a conclusão oficial seja o mais importante.

Partiu, como terá porventura vivido, com reserva e em recolhimento. Apenas ao seu circulo intimo são legitimas as interpretações das circunstancias. O resto são apenas especulações e mecanismos legalistas.

Do Homem, pouco ou nada conheci. Coincidi com ele algumas vezes na cave, então fumarenta, do velho Hot da fase pre-incêndio. Ouvi-o com atenção e admiração, entrevi naquele rapaz o talento e a capacidade de nos emocionar que só os grandes criadores transportam dentro de si. Nunca conheci a pessoa por detrás do artista. Os que o conheceram, já disseram tudo.

Da obra, fica o que os músicos, seus amigos, parceiros e cúmplices, já disseram nos últimos dias. A competência, a cultura, a curiosidade, a generosidade, o domínio absoluto da técnica, a inspiração superior, as referencias, a busca do silêncio. Também aqui, nada posso acrescentar.

As minhas preferências e referências musicais são erráticas, abrangentes e porventura inconsequentes. Gosto de musicas bastardas, de cruzamentos, de influências. Gosto do blues, do jazz, da rumba, do tango, do afoxé, do reggae, do soul, do fado, do batuque, do son, da morna, da mazurca, do samba, e muito por aí afora, por esse mundo enorme onde as culturas e as gentes se foram encontrando e desencontrando ao som de ritmos e melodias.

E de uma das maiores musicas de amores e desamores, o bolero. E é pelo bolero, recordo hoje Bernardo Sassetti.

Fica-me a imagem e a memória de um belíssimo concerto, creio que na Culturgest, de apresentação do seu segundo disco, “Mundos”, de 1996. Deste disco, disse o próprio autor –

“Mundos – da tradição à aventura. Mundos representa uma viagem a várias paragens. É a memória de um percurso, do meu percurso, que começa com a música clássica e, até hoje, foi passando por diversos estilos e sofrendo várias influências de ritmos, danças e cantares do mundo e, é claro, do jazz que definitivamente me marcou e a todas integra. Chegou para mim o momento de relembrar os mestres que, um pouco ao acaso de encontros e desencontros, fui encontrando: Bill Evans, Duke Ellington, Thelonious Monk, Horace silver, George Gershwin, Hermeto Pascoal, entre tantos outros… O momento de pôr em prática e em comum, certos aspectos fundamentais da minha aprendizagem: as canções da Broadway e dos filmes musicais, as estruturas dos blues e dos Rythm Changes, a relação que fui descobrindo entre as músicas de Portugal, da África de língua lusa e da América Latina, e também o espaço implícito para a espontaneidade e a comunicação do momento com os músicos e com o público.”

Do concerto recordo a tímida apresentação que fez de uma fabulosa, e até então desconhecida, cantora de boleros, a cubana Lucrecia. Com a reserva que a distancia e a fragilidade da memória me permitem, creio que Bernardo Sassetti, o olhar quase envergonhado a correr sobre as teclas do piano, disse qualquer coisa como: “ouvi-a em Madrid, a cantar num clube de musica latina, impressionou-me a voz extraordinária e a presença física da cantora de boleros e aí pensei: porque não convidá-la?” Uma frase de bolero !

A minha singelíssima evocação de Bernardo Sassetti e do seu piano num dos boleros da minha vida “Contigo en la Dstancia” do grande César Portillo de la Luz, na belíssima voz de Lucrecia.

Aqui.

Que descanse em paz.

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