Cântico Negro


 (Régio, por Abel Manta)

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:

Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
– Sei que não vou por aí!

Este Cântico Negro tem tido, ao longo dos anos, muitas versões e interpretações que, dada a força do poema, são sempre momentos altos do reportório de quem o declama. São disso mesmo bons exemplos as interpretações de João Villaret ou Maria Bethânia

“José Régio, de seu verdadeiro nome José Maria dos Reis Pereira, nasce em Vila do Conde, a 17 de Setembro de 1901. Data de 1925 o livro que assinala a sua revelação como poeta, perante o público e a crítica: “Poemas de Deus e do Diabo”. Em 1926 forma-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, iniciando uma longa carreira como professor no Porto, no liceu Alexandre Herculano. Em 1928, fixa-se em Portalegre, passando aí a leccionar no liceu Mouzinho de Albuquerque, onde se manterá ao serviço durante mais de trinta anos. Em 1927, juntamente com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, funda a revista “Presença”, de que é colaborador assíduo.Como poeta publicará diversas obras de relevo, como “Fado” (1941), “Mas Deus É Grande” (1945) ou “Cântico Suspenso” (1968). Mas, além da sua consagração entre os principais poetas portugueses contemporâneos, José Régio irá revelar-se ainda como romancista, novelista, ensaísta e dramaturgo, assinando obras de relevo como “Jogo da Cabra Cega (1934), “A Velha Casa” (com cinco volumes, escritos de 1945 a 1966), “Benilde ou a Virgem-Mãe” (escrito em 1947 e adaptado mais tarde ao cinema por Manoel de Oliveira) ou “A Salvação do Mundo” (1955). Morre na mesma terra onde nascera, Vila do Conde, a 22 de Dezembro de 1969. A título póstumo, é-lhe atribuído em 1970 o Prémio Nacional de Poesia pelo conjunto da sua obra poética. Em 1984, o 15 aniversário da sua morte é assinalado com diversas homenagens pelo país. Em Portalegre e Vila do Conde, as casas onde viveu são hoje museus com o seu nome.”

(in Publico Magazine)

(Régio, por Felizardo)

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