As (muitas) Artes do Zé Carlos

O Zé Carlos Faria é meu Amigo vai para 50 anos. E é daqueles a quem a amizade não exige convivência diária, porque as raízes que a alimentam são profundas e resistentes.

Na realidade. os percursos de vida que acabamos por tomar – e que, possivelmente, nenhum dos nós os dois imaginaria nos nossos longinquos 12 ou 13 anos de idade –  acabaram por, de tão diversos, interpor distância fisica durante anos a fio. O Zé “emigrado” em Évora e eu, muitas vezes, pela estranja.

Ligam-nos os anos de convivência no Colégio, os amigos comuns, os matraquilhos na saudosa Floresta, a descoberta da(s) música(s), as noite(adas) das Caldas dos idos da nossa adolescência, um benfiquismo saudavelmente irredutivel, o sentido de humor alucinado, algumas ilusões de juventude.

Cedo descobriu e cultivou o talento para as artes gráficas, como desenhador e ilustrador primoroso (aliás, há uns anos fizemos um livro de fotografia sobre a Lagoa e o Zé, generosamente como sempre, fez a ilustração da sub-capa) e para a música, como instrumentista no Charanga.

Creio que, inclusivamemnte, a chegada ao teatro aconteceu por esta via dupla e só posteriormente saltou, tambem, para o palco enquanto actor. De há uns anos para cá, tem a tripla função de cenógrafo/figurinista/actor no Teatro da Rainha.

Agora, finalmente, vamos todos poder ver os magníficos trabalhos do Zé numa Exposição de Desenhos que o Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha, vai ter patente entre 18 de Maio e 29 de Julho.

Nas palavras do autor :

“Completar 25 anos (+1 e ainda outro) no contexto sempre débil e precário do Teatro em Portugal, é, admitamo-lo, um feito.

Cumpre-se pois um quarto de século por «teatros e abrigos», duas décadas e meia em deambulações e formações por cidades e, de igual modo, por aldeias e lugares, levando o teatro onde o teatro nunca tinha ido, em paralelo com digressões internacionais e no país, por um circuito de referência.

O Teatro da Rainha traz no nome o gesto fundador do Teatro Português – o núcleo de comediantes que Gil Vicente congregou à sua volta, beneficiando do interesse e protecção da Rainha Leonor.

O entendimento do Teatro como manifestação do pulsar da Polis e ao seu serviço, na luta pelo reconhecimento dum direito de cidade tão amiúde negado, está inscrito nas opções de reportório – Clássicos e Contemporâneos – pão do espírito, Serviço Público (tão indispensável como a água) virado para Comunidade, ajudando a formar cidadãos esclarecidos.

O theatron, na matriz grega, era o «local onde se vê», ritual e factor de consciência social; o Teatro, «lugar onde nada existe e tudo pode acontecer», palco do Mundo que conta as histórias dos homens, é o que dele sobra – ser efémero…

O que foi feito e aqui fica, nunca aspirou ao estatuto de obra de arte (com aspas ou sem elas). São, antes do mais, testemunhos de um trabalho que se constrói, desconstrói e reconstrói, artesanato em busca da depuração, rascunhos, apontamentos cromáticos, estudos (estados), escalas técnicas, indicações para compreender por dentro das competências específicas convocadas, oferecidas e aferidas pelo precioso saber-fazer (o talento dos mestres-construtores e mestras de costura, chefes-maquinistas, iluminadores e aderecistas, tudo ofícios raros e exigentes, de segredos sensíveis); tentativas que o labor dos ensaios irá validar (ou não), esboços em que o desenho é instrumento que guia, a mão que ao riscar e arriscar, vê e descobre, e auxilia depois a fazer ver, conceptual/material, nessa permuta essencial com os espectadores, de que o teatro vive e necessita.

Estes esquissos são pois património colectivo de tudo aquilo que ao longo dos anos partilhámos juntos, os que fizeram e os que viram, marcos de estrada duma viagem em que todos fomos assim elaborando a aura de memória dos espectáculos, caminho andando para o que virá, o que está para vir, (desde logo, a construção de um novo edifício teatral, de portas franqueadas, sede fraterna da alegria, território fértil da imaginação poética, instrumento gerador da comunhão de afectos entre o Teatro – ponto de encontro de todas as artes – e os seus Públicos) a invenção de uma utopia latente da promessa e do provir de um teatro ( e uma «realidade nova») possível; por vir…”

Os desenhos são magnificos e aqui fica uma amostra.

Agora, vão às Caldas, corram ao Museu e vejam a exposição do Zé.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s