O Passar do Tempo

De que são feitos os dias?
De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…

(Cecília Meireles)

Fotografias: “Etiópia”,  João Martins Pereira

6 responses to “O Passar do Tempo

  1. andei à procura do livro do Pepetela, O planalto e a estepe, para retirar uma passagem que dá uma visão muito interessante da relação tempo/rosto enrugado. mas o meu pai deve ter-mo surripiado.😉
    a imagem, sugerida nessa passagem do livro, diz que a capacidade que os velhos (sekulus, na língua da minha terra) têm em encarar a passagem do tempo de forma mais tranquila, tem que ver com o facto desse mesmo tempo ser travado nos recortes da pele que as rugas fazem no rosto das pessoas. em contraponto com a ânsia de viver dos jovens de pele macia. e assim de repente veio-me à ideia o filme Fúria de viver com o fabuloso James Dean – filme mesmo apropriado a ele, de facto!
    eu achei a relação linda. aliás, tudo o que tem que ver com a sabedoria popular é belo. e muito em desuso nos tempos que correm, infelizmente.
    pronto, João, era mais ou menos isto que tinha escrito no comentário que se evaporou no éter.🙂

  2. aNa, o seu comentário é fascinante.
    Eu tive a ousadia de ilustrar um poema da grande Cecília Meireles com umas imagens minhas (ou, talvez tenha sido ao contrário, lembrei-me de palavras que poderiam levar as minhas esforçadas fotografias a uma outra dimensão, superior, que elas porventura não justifiquem).
    A aNa, com o seu olhar atento, toca nos dois extermos da larga escala de percepções da condição humana. Do orgulho na sabedoria da velhice (pedra basilar da(s) cultura(s) da nossa amada África) ao “live fast, die young” (ou o mito da glorificação da juventude na cripto-cultura reinante no hemisfério norte ocidental).
    Como Dorian Gray, todos nós temos o nosso retrato implacável. Porquê vender a alma para o esconder ?
    Um beijo para si.

  3. será que quem vende a alma, tem alma?

  4. “Saber viver é vender a alma ao diabo,
    a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
    a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
    a um satanazim que se dá por contente
    de te levar a ti, de escarnecer de mim…”
    (Alexandre O’Neill, Abandono Vigiado)

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