Angústia

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Fotografia: João Martins Pereira

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.

O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver…

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida…

Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos.

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim.

Álvaro de Campos

7 responses to “Angústia

  1. já é a terceira vez que abro esta caixa para comentar. das outras duas não consegui. porque associei as palavras à fotografia e vice-versa e não me faz sentido. ou, provavelmente, a fotografia tem um impacto tal em mim, que me desperta outra ideia e outras palavras.
    assim, de repente, faz-me lembrar todas as vezes que acordei de madrugada para viajar com os meus pais, em Angola. o dia a começar a aparecer, as poucas pessoas que ainda se viam na rua.
    por outro lado, desperta-me uma ideia de abandono. e agora, quanto a esta não digo mais. se conseguir pô-la em palavras, logo partilho consigo.
    bom sábado.

    • Andei noites à procura de umas palavras para esta imagem. Achei que as minhas não seriam suficientes e procurei as de outros.

      A fotografia é de uma madrugada na Índia, numa pequena aldeia do Rajastão. Fui até ao extremo da aldeia e a cena assaltou-me. As cores são naturais, a composição espontânea, como esta bem de ver.

      Não sei bem porquê e sem querer parecer cabotino, a imagem comove-me de cada vez que a vejo.

      Para mim, é uma fotografia que conta uma história. Será o abandono, a solidão, a angustia patentes na carrinha estropiada, no homem solitário, no pássaro que atravessa, ou será a determinação do homem que a percorrer o caminho todas as manhãs para voltar a vencer mais um dia?

  2. é, de facto, comovente. e tem história dentro dela, sim. a que cada um de nós quiser retirar. por isso é riquíssima.

    • Certamente, para muitas pessoas, será uma imagem banal.
      Tinha duvidas que mais alguém, que não eu, tivesse uma percepção semelhante, cinematográfica, desta fotografia.
      Fico muito contente que, independentemente ou apesar, da historia que cada um adivinha, a tenha lido da mesma maneira que eu.
      Um beijo

  3. a imagem tem imensa força. o pormenor do pássaro é fabuloso. acho que é ele mesmo que chamando a atenção por estar mais escuro, faz despertar, por contraponto, a atenção para tudo o resto.
    eu não quero ser pretenciosa, nem isto é sequer uma crítica, pois não tenho conhecimentos para tanto. é o que me faz sentir.🙂

    • Pretensiosos são os intelectualóies saloios que não vêem o mesmo que as outras pessoas, nós, os mortais.
      A sua crítica é genuína e emotiva. Não imagina como lhe agradeço.

      • (e eu a escrever pretensiosa com “c”, ai meu deus!! não sei que bicho me mordeu!🙂 )
        sabe, eu sei fazer poucas coisas na vida. mas uma delas é ser genuína. (como imagina, isso nem sempre é considerado uma virtude na nossa sociedade.😉 )
        e tenho o maior prazer em trocar estas impressões consigo.

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