Ano Novo / Ano Velho

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Aqui fica um excerto de “A Campanha Alegre” de Eça de Queiroz que, sob este título reuniu as crónicas publicadas em “As Farpas”, publicação mensal de crítica política, mordaz e satírica, que manteve com Ramalho Ortigão a partir de 1871.

Este texto relata o encontro, em Badajoz, entre o Ano Velho de 1871, a deixar Portugal, e o Ano Novo de 1872, que chegava.

Passaram quase 150 anos … mas o País parece o mesmo.

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Querido público, eis-te diante de um Ano Novo – o ano de 1872. os feiticeiros das Farpas, por grande maravilha o sabemos! Ano Velho e Ano Novo cruzaram-se na fronteira, em Badajoz. O Ano Velho estivera trezentos e sessenta e cinco dias em Portugal; recolhia enfastiado e embrutecido; tinha os dedos queimados do cigarro; levava o estômago estragado da mesa do hotel; ia ressequido da falta de banhos; palitava os dentes com as unhas; sabia ajudar à missa; assoava-se a um lenço vermelho; perguntava a todo o propósito que há de novo? – e era reformista. Estava aportuguesado. Ano Novo, esse, saía da frescura do Céu.

Cumprimentaram-se, risonhamente.

E no silêncio da noite, à sombra dos muros de Elvas, de onde nós escutávamos, palpitou entre os dois, vivo e rápido, este diálogo:

Ano Novo (preparando a carteira e o lápis):

– Este país em que vou entrar é uma monarquia ou uma república?

Ano Velho (gravemente):

– As geografias dizem que é uma monarquia… Pelo que vi pareceu-me que nem era uma monarquia, nem uma república – e que era apenas um chinfrim.

– Mas, Ano Velho, pelo menos há um rei?

– Há um, Ano Novo. Os jornais revelam de vez em quando a sua existência – contando que fora fotografar-se! É quanto se sabe da sua vida pública.

– Mas, esse rei reina?

– Reina – como quando se diz na descrição de uma sala: «no alto, ao pé da cornija, reina um friso dourado…

– E por onde se governa esse país?

– Este país tem a Carta, que se manifesta todos os meses nas músicas regimentais

– em hinos; e actua nas repartições de ano a ano – em suetos… É tudo o que o país sabe dela.

– E de que vive o país? Tem rendimentos, tem orçamento?

– Tem de menos, todos os anos, para pagar as despesas da casa – uns cinco ou seis mil contos. É a isto que eles chamam – as finanças. Cada ministério…

– Um momento! Eu sou um simples, um ingénuo, chego… O que é um ministério?

– É uma colecção de doze homens que se encarregam (seis trotando a cavalo atrás dos outros seis) de governar o País – isto é, de ter a mão na chave da despensa. Quando se pertence a um partido…

– Pertencer a um partido, caro colega, vem a ser?…

– É meter-se a gente num ónibus que leva aos empregos – e a que puxa o chefe do partido, sempre com o freio nos dentes!

– Mas a questão da fazenda, dizia…

– É uma espécie de nó que todos, um por um, são chamados a desatar – e que cada um aperta mais.

– Sem nunca entalar os dedos?

– Bem ao contrário! A alguns fica-lhes na mão o pó da corda. Ora é com esse pó que se compram os melões.

– E o País, em que se emprega?…

– Nas secretarias. São salas onde homens tristes escrevem em papel almaço «Il.mo e Ex. mo Sr.» – para poderem jantar, e ter este acesso: aos 20 anos semi-inúteis, aos 30 inúteis, e aos 45 inúteis e semi.

– E de onde saem esses homens?

– Do liceu, que é um lugar com bancos, onde em rapaz se decoram bocados de livros – para ter o direito de não se tornar a ler um livro inteiro depois de homem.

– Perdão, mas há uma Universidade, parece…

– Há. Mas é apenas um edifício histórico para se provar que existiu D. Dinis, seu fundador.

– Mas aí, Santo Deus, não se estuda?

– Sim, estudam-se ciências que levam cinco anos a estudar – e que estão atrasadas vinte anos; – com excepção de uma, a teologia, que acabou há um século.

– E como é a organização dos estudos?

– O aluno, ao entrar, faz uma cortesia profunda ao lente; lê lá dentro um romance que traz na algibeira; e sai fazendo ao lente outra cortesia profunda. Se não fizer isto é reprovado.

– E tudo isso para quê?

– Para se ser bacharel – unia qualidade que se exige para tudo, e que se não respeita para coisa nenhuma.

– E a que chama a política, meu amigo? Tenho-lhe ouvido…

– A política é a ocupação dos ociosos, a ciência dos ignorantes, e a riqueza dos pobres.

– Reside em S. Bento…

– Um santo do calendário?

– Uma sala que a Carta instituiu para perpetuamente se discutir quem há-de organizar o País definitivamente.

– E qual é a posição dos deputados?…

– Na aparência sentados, por dentro de cócoras.

– Perdão…

– Ah sim! a posição para com o Governo? Empregados de confiança do Governo, nomeados pelo Governo; – consentindo-se ao povo, para o contentar, que assine o decreto!

– É extraordinário! E o bom senso, não o há?

– Evita-se: porque tê-lo chama-se pedantismo, e publicá-lo chama-se insulto.

– Mas esse povo nunca se revolta?

– O povo às vezes tem-se revoltado por conta alheia. Por conta própria – nunca.

– Em resumo, qual é a sua opinião sobre Portugal?

– Um país geralmente corrompido – em que aqueles mesmos que sofrem não se indignam por sofrer. De resto a Pátria do grande Afonso de Albuquerque e de outros.

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2 responses to “Ano Novo / Ano Velho

  1. Joaquim Garnecho

    …De resto.. a PATRIA de alguns …muito poucos…e de … Muitos outros. Enfim um ” Fodim”…ou sera apenas um mero chinfrim … Happy New Year

  2. Uma réfodição como diia um velho amigo meu.
    Abraços, para ti. Gostaste do livro?
    Um bom Ano

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