Cais

(Onde um dia cheguei e de onde hei-de outro dia partir)

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Cais
Ronaldo Bastos

Para quem quer
Se soltar
Invento o cais
Invento mais
Que a solidão me dá
Invento lua nova
A clarear
Invento o amor
E sei a dor
De encontrar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim
O sonhador
Para quem quer
Me seguir
Eu quero mais
Tenho o caminho
Do que sempre quis
E um saveiro pronto
Pra partir
Invento o cais
E sei a vez
De me lançar

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Cais
Manuel Lopes

Nunca parti deste cais
e tenho o mundo na mão!
Para mim nunca é demais
responder sim
cinquenta vezes a cada não.

Por cada barco que me negou
cinquenta partem por mim
e o mar é plano e o céu azul sempre que vou!

Mundo pequeno para quem ficou…

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Aquele Cais
Vitorino Nemésio

Aquele cais ali, agudo e nu,
Que o mar percute e coroa de asas,
Sabes? pareces-me tu,
Adiada ‑ e, no fundo, casas.

Tu, não mulher salva ou perdida,
Nem tu, esperança de pedra,
Mas terra da minha vida
Onde o mar alto medra.

O cais vazio!
O que eu deixei no cais, despachado e chorando!
Meu vulto de menino frio
Que mal aquece um «até quando?».

A linha gris, rasa e arredada
Em minhas lágrimas tão nuas,
E minha ausência procurada
(Um pouco tarde) pelas tuas.

Assim um «teu» num «meu» insiste.
Que mãe anónima adianta
Cabelo longo e riso triste
À filha feita de tanta
Coisa que não existe?

Ao cais que eu penso
Não chega vela, nem jamais
Asa ou ponta de lenço
Ensina porto ou saudade
‑ Que é pura pedra idade sem idade,
Dentro de mim, o cais.

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Ode Marítima (excerto)
Álvaro de Campos

Sim, dum cais, dum cais dalgum modo material,
Real, visível como cais, cais realmente,
O Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente imitado,
Insensivelmente evocado,
Nós os homens construímos
Os nossos cais nos nossos portos,
Os nossos cais de pedra actual sobre água verdadeira,
Que depois de construídos se anunciam de repente
Coisas-Reais, Espíritos-Coisas, Entidades em Pedra-Almas,
A certos momentos nossos de sentimento-raiz
Quando no mundo-exterior como que se abre uma porta
E, sem que nada se altere,
Tudo se revela diverso.

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Fotografias: Foz do Arelho – JMPhoto

2 responses to “Cais

  1. bela conjugação textos/imagens. Sim..um dia haveremos de partir e o regresso ao cais de embarque será sempre uma possibilidade, nunca uma certeza. Abraço

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