Solidão

solidao
Fotografia: João Martins Pereira

Pouco a pouco, vamos ficando sós,
Esquecidos ou lembrados
Como nomes de ruas secundárias
Que a custo recordamos
Para subscritar
A urgência de um beijo epistolar
Ainda inutilmente apetecido.
Mortos sem ter morrido,
Lúcidos defuntos,
Vemos a vida pertencer aos outros.
E descobrimos, na maneira deles,
Que nada somos
Para além do seu dissimulado
Enfado
Paciente.
E que lá fora, diariamente,
Conforme arde no céu,
O sol aquece
Ou arrefece
Os versáteis e alheios sentimentos.
E que fomos riscados
No rol da humanidade
A que já não pertencemos
De maneira nenhuma.
E que tudo o que em nós era claridade
Se transformou em bruma.

Miguel Torga, 1992

4 responses to “Solidão

  1. Vítor Félix

    Quem tem irmãos, nunca está só…

  2. Recomeça….

    Se puderes

    Sem angústia

    E sem pressa.

    E os passos que deres,

    Nesse caminho duro

    Do futuro

    Dá-os em liberdade.

    Enquanto não alcances

    Não descanses.

    De nenhum fruto queiras só metade.



    E, nunca saciado,

    Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

    Sempre a sonhar e vendo

    O logro da aventura.

    És homem, não te esqueças!

    Só é tua a loucura

    Onde, com lucidez, te reconheças…

    Miguel Torga, “Recomeçar”

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