Sono

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Fotografia: João Martins Pereira

O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —

Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:

É o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro,
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim,
É contudo como todos os sonos.

O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda,
Por sobre o ombro que a sente.

Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte,
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.

De quem ?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono!…

Álvaro de Campos, in “Poemas”

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